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terça-feira, 5 de julho de 2011

Desvendando o Original - Longanimidade



Por Daniel Lago
Seguindo nosso estudo sobre os frutos do Espírito, abordaremos agora o quarto fruto: a longanimidade. Em grego, o termo para longanimidade é “makrothumia”, palavra relacionada à paciência e à temperança. Esse substantivo grego é comporto por duas palavras: “makros” e “thumos”. O primeiro termo, “makros”, traz a ideia de “longo” ou “distante”. A raiz de “makros” é “megas”, que pode significar “grande”, “maravilhoso” ou “elevado”. O segundo termo, “thumos”, significa “ira”, “furor”, “indignação” ou “cólera”. A raiz de “thumos” é “thuo”, que significa “respirar intensamente”, “sopro”, “fumaça”, e por implicação, “sacrificar”, “imolar” e “matar”. Dessa maneira, vemos que a palavra grega para “longanimidade” (makrothumia) se refere à pessoa que possui a virtude de ser “tardio em irar-se”, em demorar muito a chegar a irritar-se. Relaciona-se, portanto, a uma mansidão. 

Todavia, se analisamos a raiz da palavra “makrothumia”, vemos que ela também pode significar “grande sacrifício”. Isso porque se requer um grande esforço para buscar essa longanimidade que só pode ser concedida pelo Espírito Santo. Além disso, foi através do grande sacrifício de Cristo que tivemos acesso a esse dom, que não é muito praticado ou buscado atualmente. Hoje, em uma época em que o individualismo impera na sociedade contemporânea, valoriza-se, por exemplo, o dom de variedade de línguas, porque traz notoriedade e destaque para aqueles que o manifestam. A longanimidade, porém, não é muito valorizada como critério para descobrirmos se alguém está em comunhão com Deus.

Talvez seja por isso que ocorram tantos escândalos, pois pessoas que manifestam dons estão sendo vistas como santas, enquanto, na verdade, são os frutos que devem usados para saber se alguém está conectado ou não com Cristo (João 15.1-4).

Em hebraico, o termo usado para longanimidade é “orek”, palavra que está relacionada à ideia de “ser longo”, “ser eterno”. Ou seja, a longanimidade é um dom que evidencia que a paciência da pessoa é longa, e isso é um sinal de quem está em verdadeira comunhão com o Eterno, de quem está caminhando em direção à vida eterna. Veja o que está escrito em Gênesis 6.3 conforma a Nova Tradução na Linguagem de Hoje: “Não deixarei que os seres humanos vivam para sempre, pois são mortais”. Ou seja, o homem natural, que não conhece a Deus nem os dons do Senhor, nunca poderá viver eternamente, pois não conhece o dom que coloca o homem em contato direto com o que é eterno: a longanimidade.

A raiz de “‘orek” é “‘arak”, que significa “alongar”. Quando vivemos uma verdadeira comunhão com Deus, Ele prolonga nossa existência, pois aquele que crê no Senhor, ainda que morra, viverá (João 11.25). Jesus foi preparar um lugar onde teremos uma longa e próspera comunhão com ele, pois onde Cristo estiver estaremos eternamente com Ele (João 14.1-3). 

Outro termo relacionado a “’orek” é “rak”, que significa “tenro”, derivado de “rakak”, que significa “suavizar” ou “amolecer”, “fraco” (2 Samuel 3.39), “inexperiente” (1 Crônicas 29.1).

Paulo nos deixou bem claro como isso funciona quando disse: “Quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Coríntios 12.10). Aquele que recebe de Deus o dom da longanimidade (‘orek) descobre que a verdadeira vitória está em reconhecer que somos fracos (rakak) e inexperientes, pois assim abrimos margem para que Deus possa agir em nossas vidas e ensinar-nos o que é realmente bom, perfeito e agradável (Romanos 12.2).

Outra palavra derivada de “‘orek” é “‘arek”, significa “lento”. Foi por não conseguir ser lento em agir, mas decidir resolver rapidamente o problema de sua própria maneira, que Abraão engravidou Agar e Saul fez um sacrifício que não foi aceito por Deus (1 Samuel 13.13). A longanimidade (‘orek) não somente torna o homem lento (‘arek) em irar-se, mas também o torna capaz de ter fé suficiente para esperar a ação divina. 

A palavra “‘arukah” também é derivada de “‘orek” e significa “reparar”, no sentido de “prolongar a vida”. A longanimidade é capaz de reparar maldições e restaurar vidas. Foi através da longanimidade (‘orek) de Cristo, que suportou com mansidão todas as aflições que lhe sobrevieram, que obtivemos a salvação e foi restaurada (‘arukah) a comunhão de Deus com o homem. 

O termo “morek”, que significa “desmaiar”, também é derivado de “‘orek”. Qual é a relação entre longanimidade é “desmaiar”? O significado humano dessa relação está no fato de que a palavra hebraica para longanimidade (‘orek) se relaciona com o termo hebraico para o órgão reprodutor masculino (yarek), pois tem forma alongada. E o homem, quando é atingido em suas partes íntimas, corre o risco de desmaiar. Todavia, o significado espiritual é mais profundo. Quando o homem recebe de Deus o dom da longanimidade, ele aprende a buscar o Senhor e ter paciência e esperança suficientes para aguardar a resposta. Por isso, aquele que é longânimo acaba tendo um encontro com o Senhor, assim como os discípulos que esperaram diligentemente durante dez dias no cenáculo até que foram visitados por uma poderosa manifestação da glória divina. E quando o homem encontra com Deus, ele desfalece, pois não pode suportar o poder da presença divina. Percebam que João possuía essa esperança de ter um encontro tremendo com Deus, de modo que o conheceria não em sua forma esvaziada (Filipenses 2.6-7), mas assim como Ele é, na plenitude de sua glória. Veja como João manifesta sua longanimidade em 1 João 3.2-3:

 “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos. E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro”. Em virtude de sua longanimidade, João estava esperando encontrar com Jesus e conhecê-lo como ele é de verdade. João perseverou tanto em sua longanimidade que ele acabou encontrando com o Senhor (Apocalipse 1.10-18). O que aconteceu com João quando preservou sua longanimidade (‘orek) e teve um encontro poderoso com o Senhor? Ele desmaiou (morek). Quem tiver longanimidade vai acabar encontrando com Deus assim como o Senhor é, e acabará desmaiando diante da glória do Eterno. Mas Deus o levantará pelas mãos e revelará mistérios que estão em oculto que não conhecemos (Mateus 6.6). 

Por fim, temos a palavra “rechov”, também relacionada a “‘orek”, que significa “abrir” ou “rua”. Através da obra redentora de Cristo, que com longanimidade foi fiel até a morte, e morte de cruz, Jesus abriu um caminho (rechov) entre o céu e a terra. Ele mesmo é esse caminho (João 14.6), e quem recebe de Deus o dom da longanimidade (‘orek), acaba conhecendo essa rua (rechov) que segue em direção à eternidade.

Busque o dom da longanimidade, pois assim você compreenderá, através de Jesus Cristo, o que é ter uma vida longa e eterna na presença do Altíssimo.

Daniel Lago é jornalista e doutorando em Linguística na Universidade Federal Fluminense (UFF). É também professor universitário, tradutor e diretor do programa e ministério Desvendando o Original, gente finíssima e meu professor no bacharelado de teologia na Wittenberg.

Abraços fraternos do Comuna.

domingo, 24 de abril de 2011

A Verdadeira Vitória



Por Daniel Lago
Nunca se falou tanto sobre vitória. Neste artigo, analisaremos as Escrituras com o fim de descobrir se o conceito bíblico de vitória é o mesmo que tem sido divulgado.

Nosso versículo de referência é 1 Crônicas 29.11:

“Teu, SENHOR, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, SENHOR, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos.” (Revista e Atualizada). 

Em hebraico, a palavra “vitória” é “netsach”, que pode significar “objetivo” ou “esplendor”. A princípio, não vemos nenhuma relação entre um objetivo e algo que brilha. Todavia, a palavra “alvo” possui ambas as ideias, pois vem do latim “album”, que significa “clareza”, “brancura”. Todo alvo, para ser atingido, deve ser claro e aparente. É muito difícil acertar um alvo no escuro. Todavia, em um local iluminado, o alvo é facilmente atingido. Temos, aqui, uma primeira reflexão: Se a vitória é o objetivo do cristão, é preciso ter, de forma clara, qual é o alvo. Para isso, precisa-se da luz para revelar onde está o alvo. 

Para alcançar a vitória, portanto, é necessário descobrir onde está o alvo, através da luz que o ilumina. A luz é a Palavra de Deus, como está escrito: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos.” (Salmo 119.105). Qualquer promessa de vitória que não está calcada na Palavra de Deus trará uma falsa vitória. 

Não é possível encontrar o verdadeiro alvo e a verdadeira vitória sem a orientação da Palavra de Deus. Paulo nos ensinou sobre o alvo do cristão: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3.14.) O termo grego para vocação é “klesis”, que significa “chamado”. Nosso chamado, que é o nosso alvo e a nossa vitória, é o seguinte: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Marcos 16.15). Somente quem prega o verdadeiro evangelho terá a verdadeira vitória.

Hoje em dia, porém, tem sido pregado um evangelho muito diferente daquele que Jesus pregava. O evangelho é a mensagem da salvação, como está escrito: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.” (Romanos 1.16). Ou seja, nossa vitória é a salvação de nossa alma, é a vida eterna. E aquele que é salvo de verdade, trabalha para a salvação dos outros. Este obterá a verdadeira vitória.

Cristo disse o seguinte sobre a vida eterna: “a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.40). Quem vê o filho, descobre que ele é o alvo e crê nele, e vai em direção a ele, se lança sobre ele, como está escrito: “Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.” (Mateus 21.44.) O néscio recusa a Cristo, e no final dos tempos Jesus cairá sobre ele como uma rocha e o esmagará. O homem prudente, porém, ao ver o alvo, que é Cristo, se lança sobre ele e é quebrado em pedaços, quebrantado, como o vaso na casa do oleiro (Jeremias 18.2), para ser feito novamente. Este é o novo nascimento, que embora doloroso, é fundamental para que alguém alcance a verdadeira vitória, que é a vida eterna. 

Na verdade, quando o texto fala que o homem que cair sobre a pedra, que é Jesus, ficará “em pedaços”, a expressão grega é “sunthlasthêsetai”, cujo equivalente hebraico é “shabar”, que pode significar também “nascer”. Ou seja, quem cair sobre Jesus e for quebrado passará pelo novo nascimento, condição fundamental para alcançar a vitória, isto é, entrar no Reino de Deus, como Jesus disse a Nicodemos: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus.” (João 3.5.) 

Hoje, buscam-se vitórias em conquistas materiais e em prestígio social. Cristo, porém, nos ensinou: “Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus.” (Lucas 10.20.)

Em hebraico, portanto, a vitória está ligada a manter-se no objetivo, seguindo o alvo. A palavra grega para alvo é “skopos”, que assim como o equivalente hebraico “mattarah”, pode significar “prisão” ou “olhar”, porque tanto o alvo como a prisão devem ser vigiados de modo constante e cuidadoso. Quem não vigia, perde o alvo, perde a vitória, e o inimigo que estava preso foge e inicia uma revolta. Assim aconteceu com Acabe, que deixou seu prisioneiro fugir e perdeu a vitória que poderia ter alcançado (1 Reis 20.42). Muitos cristãos, infelizmente, estão se enganando, crendo que a vitória guardada para eles reside em benefícios materiais, riqueza e poder. Peço a Deus, em Nome de Jesus, que eles possam escutar o verdadeiro evangelho a tempo, o Evangelho do Reino, e não da prosperidade. 

O curioso é que a palavra hebraica para vitória, “natsach”, também pode significar “mestre do canto” (Habacuque 3.19), pois “netsach” significa “eminente” ou “aquele que brilha”. O mestre de canto era uma pessoa eminente na sociedade, e sua função era trazer a eternidade para a vida dos homens, pois, em hebraico, “natsach” também pode significar “aquele que torna as coisas permanentes”. Ou seja, a função do mestre de canto é exaltar a Palavra de Deus, abrindo, assim, um caminho para a eternidade. 

A palavra “natsach” é formada por uma raiz de três letras: nun, tsadi e chet. No alfabeto proto-semítico (que originou o alfabeto hebraico), a letra nun tem o desenho de uma semente, e significa “frutificação”. A letra tsadi tem o desenho de um homem deitado de lado, e significa “lateral”, “espreita”. A letra chet tem o desenho de um muro, e representa “o lado de fora”. A união das três letras tem o significado de “aquilo que brota para fora”, ou “aquilo que se expande para fora e continua”. Esta é a característica do mestre de canto, e de todo cristão vitorioso: dele sai uma fonte de água que jorra para vida eterna (João 4.14), pois dele brota a Palavra de Deus para a salvação de muitos. Isso fará com que ele permaneça para sempre. 

Somente o cristão que prega o verdadeiro Evangelho, aquele mesmo que Jesus pregava, conhecerá a verdadeira vitória, que é o alvo da soberana vocação que há em Cristo Jesus!
 
Daniel Lago  é jornalista formado pela UFRJ, doutor em Linguística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor de Filosofia da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo estudado hebraico na Sinagoga ARI, em Botafogo – RJ, além de lecionar na Faculdade de Teologia Wittenberg.

daniel4310lago@yahoo.com.br / imersaoeintimidade@yahoo.com.br

terça-feira, 22 de março de 2011

Desvendando O Original no Verbo Primitivo Na Pós Modernidade.


Olá camaradas! A Paz do Eterno!

Mantendo o compromisso de tornar esse blog uma ferramenta relevante para edificação de quem por aqui navegue, tenho a honra e a alegria de comunicar que à partir de agora o programa Desvendando o Original terá suas matérias também publicadas aqui no Verbo Primitivo Na Pós Modernidade.

O programa Desvendando o Original foi idealizado e criado pelo jornalista e doutorando em linguística Daniel Lago (veja o curriculo dele aqui). Daniel é meu professor desde julho do ano passado na Faculdade de Teologia Wittenberg, e depois de estreitarmos relações nos cafés dos intervalos das aulas, nasce essa parceria. 

Como o nome sugere, Desvendando o Original é um programa voltado para os estudos das línguas originais das Escrituras Sagradas, e com o intuito de apresentar o seu idealizador para os leitores do Verbo Primitivo Na Pós Modernidade, segue abaixo uma entrevista com o mestre Daniel Lago, onde ele dá dicas de estudos,  fala sobre sua rotina literária, polemiza dando um diagnóstico sobre a pós reforma contemporânea e os rumos da igreja brasileira nos dias atuais.

Publicamente agradeço ao Eterno por essa parceria que muito vai edificar à todos nós. Valeu Daniel! Original na cara deles!

Verbo Primitivo Na Pós Modernidade. Quando nasceu em você a vontade pelas línguas originais das Escrituras? Alguma preferência entre elas? 

Daniel Lago. Na verdade, ao ingressar no seminário aos 18 anos, confrontei muitos professores, por julgar incoerentes as teorias que eles estavam passando como se fossem “verdades inquestionáveis”. Muitas vezes nesses questionamentos os professores me perguntavam: “Você sabe grego? Sabe hebraico? Sabe alemão?”. Quando eu respondia que não sabia, era convidado a ficar calado, e conhecer tais línguas. Por isso, fui estudar o hebraico na Sinagoga ARI, em Botafogo, e o grego, assim como filosofia, seguindo meus estudos em Linguística no Mestrado (UERJ) e no Doutorado (UFF) para poder rebater as mentiras que esses “saduceus” estavam ensinando. O problema é que hoje temos pessoas muito espirituais, mas extremamente desinformadas, e pessoas muito cultas, porém céticas. Tento fazer a ponte entre essas duas coisas, tomando como inspiração John Wesley, o fundador do metodismo, igreja a que pertenço. 

VPNPM. Quais as línguas que você domina? 

Daniel Lago. Ao todo, contando as línguas que estudei e as que ainda estudo, somam 9 idiomas (português, inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, russo, grego e hebraico). As que tenho maior domínio são português, espanhol, inglês e francês. 

VPNPM. Como surgiu a ideia e qual o propósito de criar o Desvendando o Original? Quem são os membros da sua equipe? 

Daniel Lago. Eu fiz alguns vídeos bem caseiros. Depois disso, um grande amigo de infância, um dos maiores videomakers de surf do Brasil, senão do mundo - Gustavo “Camarão” Bordallo - que hoje também está no ramo de casamentos (filmou o casamento do irmão do Boninho), assistiu os programas que eu havia feito e me propôs fazer uma coisa mais profissional. Assim, os assuntos que abordo em minha coluna semanal no portal Lagoinha.com (da Igreja Batista da Lagoinha), chamada “Desvendando o Original”, deu origem à versão em vídeo do Programa “Desvendando o Original”, onde analiso textos bíblicos a partir dos originais grego e hebraico. Os vídeos podem ser vistos no blog http://desvendandooriginal.blogspot.com/. Só para constar, o meu parceiro no programa, o Gustavo Bordallo, é o dono da produtora “Uma Rosa Filmes” (http://www.umarosafilmes.com/). 
Meus companheiros no programa são o Julius Moreira, que é presbítero da Igreja Bola de Neve de Niterói e é aluno de filosofia da UFRJ. Além disso, temos o Marcius Mendonça, amigo de longa data e que atua na Igreja Videira em Niterói. O outro componente é o Rafael Allevato, que é líder de jovens na Igreja Operação Resgate. São todos grandes amigos, estudiosos da Palavra, homens de Deus e que têm a mente suficientemente aberta para abordar os temas controversos que tocamos no programa. 
O propósito do programa é esclarecer a Igreja brasileira sobre o quão distante estamos do verdadeiro Evangelho, e também quebrar o medo que as pessoas têm com relação ao idioma hebraico. 

VPNPM. Você também publica seus textos no portal Lagoinha.com. Como surgiu essa parceria? 

Daniel Lago. Minha esposa sempre foi leitora assídua do portal Lagoinha.com. Por isso, ela me deu a idéia de entrar em contato com eles e propor essa parceria. Assim, há dois anos e meio tenho colaborado com o portal, que é um dos mais acessados do país. Os quatro artigos mais lidos da seção “Estudos Bíblicos” são todos de minha autoria. Tem sido uma experiência muito boa, pois posso apresentar meu trabalho, abençoar pessoas e ter a oportunidade de receber muitos e-mails com dúvidas sobre o hebraico, assunto tão “temido” entre os cristãos. 

VPNPMVocê tem apenas 28 anos de idade e já tem um currículo acadêmico bastante vasto. Como é a sua rotina de estudos? Como conciliar família, trabalho, doutorado...? 

Daniel Lago. Na verdade, fiz 29 agora em fevereiro. É uma rotina muito puxada. Eu tento seguir aquele versículo que diz: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Salmo 90:12). Tento aproveitar meu tempo da melhor maneira possível. Sempre que estou acordado estou estudando. Se estou no ônibus eu leio. Li muitos livros em ônibus, incluindo grandes clássicos como “Crime e Castigo” do Dostoievski e “A Montanha Mágica” do Thomas Mann, um “livrinho” de 965 páginas, além de toda a coleção da fase realista de Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cuba, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e o Memorial de Aires), entre muitos outros. Também li a Bíblia inteira, do início ao fim, no ônibus. Quando estou dirigindo meu carro, estou sempre escutando áudio books, uma excelente opção que tem ajudado meus estudos. O problema é que a maioria dos livros em áudio que escuto estão em inglês. Fica aí então a dica: não saber inglês atrapalha muito no processo de estudos. 

Sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo. Estou sempre correndo “atrás do prejuízo”. Na verdade, sou também poeta e contista, tenho alguns deles publicados pelas editoras CBJE e Br Letras. Fiz um poema sobre mim mesmo, baseado em um semelhante de Jorge Luís Borges: 

“ESPELHO 
(Daniel Lopez) 

Vejo. Quando me olho ao espelho, mais-que-vejo. Penso, existo. 

Vejo. Uma imagem familiar, olhos e bocas, nariz. Todavia, algo mais. 

Vejo quem? Um exemplar de uma espécie. Mais um. 

Um sonho talvez. Algumas decepções. Muitas coisas, pouco tempo. 

Vejo Daniel. Sou Daniel. Ser Daniel é estar alhures. Onde? 

Vejo, viajo, sinto e penso como o nada far-se-ia completo

Vejo, reflito, minha imagem no espelho de minha própria sub-tração”

Esse final expressa bem o que faço para dar conta de tudo: estou sempre em super-tração, mas sempre estou achando que estou aquém do que poderia fazer, em uma espécie de “sub-tração”. 

Tenho uma questão porque sou muito agarrado com minha esposa (Bárbara) e minha filha (Sofia). Mas consigo, na medida do possível, conciliar estudo e trabalho com família. Tento, quando estou em casa, compensar minhas ausências. O problema é que geralmente a madrugada acaba sendo o melhor horário de leituras. Às vezes, durmo menos de cinco horas por dia. 

VPNPM. Ano passado assisti uma palestra com você sobre John Wesley nas comemorações da Semana da Reforma Protestante. Como anda aquele trabalho de tradução da bíblia para o português com os comentários de Wesley? 

Daniel Lago. O trabalho de tradução, apesar de estar com o cronograma atrasado, está fluindo bem. Eu traduzi os comentários de Wesley do livro de Atos dos Apóstolos e de todo o Pentateuco. Agora estou traduzindo os comentários de Josué até Jó. Tenho até o meio do ano para entregá-lo. Para quem não sabe do que se trata, esse trabalho de tradução se refere à produção da “Bíblia de Wesley”, encomendada pela Sociedade Bíblica do Brasil à Universidade Metodista de São Paulo, sob a coordenação do prof. Dr. Helmut Renders. Se correr tudo bem, no próximo ano teremos essa Bíblia já no mercado. 

VPNPM. Por falar em Reforma, como você avalia o protestantismo 493 anos depois do início da Reforma Protestante? 

Daniel Lago. Vou polemizar agora. Em Lucas 13.20-21, Jesus diz o seguinte: “A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado”. O fermento simboliza a corrupção da sã doutrina, como o “fermento dos fariseus” (Mateus 16.6,11,12; Marcos 8.15 e Lucas 12.1). Quando Jesus afirma que o reino de Deus se assemelha ao fermento, tomo isso como uma revelação de que a sã doutrina seria corrompida por “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4.1). Se tomarmos as “três medidas de farinha” como os três grandes troncos da tradição judaico-cristã, judaísmo, cristianismo católico (romano e oriental), e protestantismo, vemos que os três foram contaminados. O judaísmo pelo misticismo cabalista, o catolicismo por tudo aquilo que já sabemos, e o protestantismo pelo gnosticismo maçônico-iluminista. Para responder então: acho que ainda há muitas doutrinas de demônios nas Igrejas, e que os protestantes continuam sendo dominados pela Igreja de Roma, através dos jesuítas. Mais do que isso, se eu falar, posso comprometer minha integridade física... É papo para conversar pessoalmente, e não publicamente. 

VPNPME os rumos da igreja no Brasil, esse crescimento no número de evangélicos. Você acredita que isso seja fruto da eficácia evangelística ou fruto do evangelho triunfalista que está sendo propagado por aí em larga escala? 

Daniel Lago. Em sua grande maioria, fruto do triunfalismo. As pessoas gostam muito de gritar e sentir arrepios, mas ninguém quer negar a si mesmo e tomar a sua própria cruz. Cada um está buscando a sua salvação e suas bênçãos individualmente. É por isso que o dom mais buscado e valorizado hoje é o de língua, pois ele edifica apenas a própria pessoa. É o dom mais buscado pelos egoístas, que querem apenas sua edificação pessoal. Creio que isso é consequência da profecia que anunciou que no fim dos tempos o amor de muitos esfriaria.

Seja bem vindo ao Verbo Primitivo Daniel! Espalhemos a subversão do Evangelho aos quatro cantos dessa terra!

quinta-feira, 3 de março de 2011

As três testemunhas


Jesus nos comissionou a testemunharmos sua palavra e ordenou que fôssemos por todo o mundo pregando o evangelho a toda criatura (Marcos 16.15). Cristo também nos enviou para fazermos discípulos (Mateus 28.19) e nos prometeu que seríamos suas testemunhas (Atos 1.8). O curioso é que, em Atos 1.8, vemos que os discípulos somente se tornariam testemunhas depois que recebessem o poder do Espírito Santo. Em João 3.5, lemos que, além do Espírito, há outra coisa que a testemunha necessita – a água: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. O próprio João, por sua vez, nos afirma que além do Espírito e da água, há um terceiro elemento fundamental para que alguém possa se tornar uma verdadeira testemunha de Cristo: o sangue. João escreveu o seguinte: 


“E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito” (1 João 5.8). 

João nos ensina que a verdadeira testemunha deve trazer em si esses três elementos: o Espírito, o sangue e a água. Analisemos, portanto, desvendando o original, o que é ser testemunha de Cristo e qual é a sua relação com o Espírito, a água e o sangue.

Em grego, a palavra testemunha é “martureo”, que se relaciona com “martus”, traduzido por “mártir”. Em primeiro lugar, concluímos que a verdadeira testemunha é aquela que está disposta a entregar sua vida pela causa do evangelho. O verdadeiro cristão, aquele que realmente quer atender ao chamado de Cristo, deve ter em si o ardente desejo de anunciar o evangelho, custe o que custar. Isso envolve um sério risco de perseguição e morte. Ser uma testemunha é verdadeiramente perder a vida por Cristo, como está escrito: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Marcos 8.35). A verdadeira testemunha não se importa em perder sua vida pelo evangelho, pois ela crê na palavra que diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11.25). A verdadeira testemunha vive com esta promessa gravada em seu coração, pois para ele, “viver é Cristo e morrer é lucro” (Filipenses 1.21), porque não é mais ele quem vive, mas Cristo que vive através dele (Gálatas 2.20). Paulo é um excelente exemplo da verdadeira testemunha, pois entregou sua vida e tudo que tinha pela causa do evangelho.



O termo grego “martureo” também se relaciona com “mermera”, que significa “zelo” ou “problema”. Isso porque o cristão que é zeloso é um portador do testemunho de Cristo, e isso gera ódio no inimigo, que tentará por todos os meios eliminar esse emissário da Palavra de Deus. Assim, a testemunha zelosa está sempre gerando problemas para o reino do inimigo e, por isso, vive em constante embate com as trevas. 



Jesus já nos havia avisado sobre essa perseguição: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (João 15.18-19). Quem vem para Jesus para ser amigo de todos e busca viver uma vida tranquila, está enganado. O descanso é a nossa recompensa, e não o nosso chamado. Nós fomos chamados para arrombar as portas do inferno (Mateus 16.18) e levar cativos aqueles que estão no cativeiro do inimigo (Efésios 4.8). É por isso que a palavra grega para “testemunha” (martureo) também traz a ideia de “estar ansioso” (mermairein), pois o verdadeiro cristão está sempre ansioso por revelar Jesus àqueles que anseiam ardentemente pela revelação dos filhos de Deus (Romanos 8.19). Esse é o verdadeiro cristão. Essa é a testemunha. 



Agora, analisemos a função do Espírito, da água e do sangue no chamado da testemunha. O Espírito é aquele que concede poder às testemunhas (Atos 1.8). Esse poder a orientará sobre tudo o que a testemunha deve fazer e por onde ela deve andar. Em hebraico, as palavras “espírito” (ruach), “viajar” (‘arach) e “caminho” (‘orach) estão todas relacionadas, porque o Espírito é o vento que conduz no caminho, como em João 3.8: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. O Espírito é quem estabelece o itinerário da testemunha, mostrando-lhe o caminho em que deve andar. Se em hebraico a Lei (torah) é a seta que aponta (yarah) para o caminho (‘orach) e uma pá (rachat) que abre caminho (‘orach), o Espírito (ruach) é aquele que dá poder (koach) à testemunha para que ela possa andar no caminho e brilhar como uma lua (yerach) que reflete a verdadeira luz e traz o aroma (reyach) suave de Cristo (2 Coríntios 2.15). Essa é a capacitação que o Espírito concede à testemunha.   



A água também exerce função especial no ministério da testemunha. Em hebraico, a palavra “água” é “mayim”, relacionada ao mar (yam). O curioso é que a palavra hebraica para água (mayim), na primeira vez que aparece na Bíblia, está associada ao Espírito: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gênesis 1.2). Assim, vemos que essas duas testemunhas - o Espírito e a água - estão unidas desde a criação. Isso porque o Espírito conduz a testemunha pelo caminho sobre as águas, assim como Cristo e Pedro, que juntos andaram sobre as águas (Mateus 14.29). Andar sobre as águas significa andar sobre a palavra, pois a água representa a purificação feita pela palavra, como em João 15.3: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado”. 



Além disso, a água e o Espírito, unidos, representam o novo nascimento, pois como vimos, “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (João 3.5). O novo nascimento nas águas e o batismo com o Espírito faz com que a pessoa deixe de ser um “homem natural” (1 Coríntios 2.14) e se torne um “homem espiritual” (1 Coríntios 2.15). Essa transformação, feita pela união entre água e Espírito, está relatada em Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. 



Após receber o Espírito e a água, a testemunha tem acesso à verdadeira vontade de Deus. Aquele que é nascido através da vontade de Deus (João 1.13) tem acesso à vontade de Deus e descobre que a vontade do Senhor é a santificação (1 Timóteo 4.3), e aprende que quem faz a vontade do Eterno permanecerá para sempre (1 João 2.17). Isso porque a vontade de Deus é que todos sejam salvos (1 Timóteo 2.4). Andar sobre as águas, através do Espírito, significa, portanto, conhecer e viver a vontade de Deus. 



A palavra “água”, na verdade, aparece não somente no segundo versículo da Bíblia, mas no primeiro. Quando lemos em Gênesis 1.1 que Deus criou os “céus” e a terra, o termo traduzido por “céus” é “shamayim” que pode ser lido como fruto da união entre as palavras “fogo” (‘esh) e “água” (mayim). Ou seja, em hebraico, o céu é o local da habitação do fogo e da água. Assim, quando a testemunha recebe o Espírito, que sempre é acompanhado pelo fogo (Mateus 3.11), e a água, ela se torna um cidadão celestial, um embaixador (Efésios 6.20) da Nova Jerusalém. Espírito, fogo e água fazem da testemunha um fiel portador das coisas do alto.  



Andar sobre as águas também significa andar sobre o desconhecido. Ainda que houvesse pescadores entre os judeus, o mar era um lugar desconhecido e temido na cultura judaica. Isso fica claro quando vemos a semelhança entre os termos hebraicos “mayim” (“água”), “yam” (“mar”), “ayom” (“terror”, “medo”), “eymah” (“horror”, “pânico”), “eymiym” (“terrores”, também nome de uma tribo cananeia composta por gigantes citada em Deuteronômio 2.10). A água, portanto, faz com que a testemunha vença o medo do desconhecido e passe a viver o sobrenatural de Deus. 



Voltando a Gênesis 1.2, veremos que o Espírito pairava sobre as águas, e abaixo das águas havia o abismo. Quando o Espírito nos conduz a andar sobre as águas, nós cruzamos o abismo que há entre a morte e a vida. Esse abismo só pode ser cruzado antes da morte, para aqueles que receberam a salvação de Cristo. Após a morte, este abismo não pode ser cruzado, como Jesus nos ensinou na parábola do rico e Lázaro (Lucas 16.20-31). 



Os bruxos que seguem os escritos de Aleister Crowley, o maior satanista do século XX, utilizam a “árvore da vida” da cabala como forma de seguir uma iniciação esotérica até cruzarem o abismo, quando passam a ter plena comunhão com os demônios. Veja como o inimigo está sempre querendo imitar as coisas de Deus e corromper as verdades bíblicas. É impossível cruzar o abismo sem caminhar sobre a água da palavra e ser conduzido pelo Espírito Santo. Quando o bruxo “cruza o abismo”, sua vida passa a ser completamente dominado por demônios. Quando a testemunha de Cristo cruza o abismo, ela se torna um com Jesus. 



Por fim, há o sangue. Se em grego sangue é “aima”, em hebraico é “dam”, palavra que tem um gama de significados, cada um expressando uma verdade espiritual. Em hebraico, “sangue” (dam) se relaciona com “Adão” (‘adam) e com “semelhança” (demuth), a mesma palavra usada em Gênesis 1.16, onde se lê que o homem foi feito à semelhança de Deus. Assim, quando a testemunha recebe o sangue (dam), ela retorna ao estado de Adão (‘adam) antes da queda, tornando-se semelhante (demuth) a Deus. Ela se torna parecida com Cristo, assim como um filho que se parece com seu pai. Recebe o poder de ser feito filho de Deus, pois crê no seu nome (João 1.12) e permanece em Cristo (João 15.5), cumprindo seus mandamentos (João 14.15). Sem o sangue (dam) o cristão é cortado (demiy), fica mudo (damam), pois não consegue pregar a Palavra. Com o sangue, o Cristão está vivo, pois a vida está no sangue (Levítico 17.11).



O sangue nutre as células, protege o corpo, retira as impurezas, transporta hormônios e regula a temperatura. Assim também o sangue de Cristo nutre a testemunha, a protege, limpa e não permite que se esfrie. É uma capacitação para a verdadeira testemunha de Cristo.



Que você possa ser capacitado por Cristo para se tornar uma testemunha fiel da verdade do Evangelho e da soberana vocação de Cristo (Filipenses 3.14), em Nome de Jesus!


::Daniel Lago