Por Marcello Comuna
“O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.
Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis,
querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas.” 1º Timóteo 5:7
Propositalmente quero ignorar a hermenêutica e aplicar esses versos para corroborar minha reflexão. Calma! Prometo não criar heresias. Presenciei uma situação e imediatamente esses versos vieram à minha cabeça.
Identifico-me com a linha de pensamento que a igreja deva se relacionar com a cultura e sociedade ao seu redor rompendo com esse modelo dominante de subcultura da bolha evangélica. Sendo assim, tenho muitos amigos que não pertencem à igreja e assim, tenho a oportunidade de escutar diversas opiniões de como o “mundo” enxerga a igreja e temas espirituais.
Lembrei-me de uma conhecida e suas severas críticas a uma vizinha cristã por conta de alguns comportamentos que segundo ela, não estavam de acordo com uma vida devocional a Deus.
No entanto, essa conhecida não tem nenhum conhecimento teológico ou ao menos conhece as primícias do Evangelho, mas conseguiu criar um linear do que é ser uma pessoa cristã e fazer seu julgamento.
O mundo observa a igreja e faz severas afirmações sobre o povo de Deus. Eles não compreendem o que falam, mas ainda assim fazem asseverações sobre dogmas, fé, relacionamento com Deus, salvação, reencarnação, céu, inferno e etc.
O mundo se farta dos seus próprios conselhos e a velha sabedoria popular ou iluminista fazem um esforço pastoral para guiar as pessoas à iluminação, porém, sem sucesso. O mundo está em chamas e a igreja que deveria ser a água para apagar o fogo, permanece irrelevante, poucos bravos bombeiros se esforçam, mas é difícil apagar um incêndio com copos d’água. Na verdade, na maioria das vezes, servimos como gasolina para fogueira caótica universal.
O mundo em sua ignorância faz severas afirmações sobre a igreja e a culpa é nossa. Tiremos a máscara! Nós falhamos! Assumamos a culpa, arrepende-monos, tomemos outro rumo! O mundo enxerga através da vitrine e os nossos vidros estão embaçados. Queremos demonstrar amor, mas só conseguimos demonstrar intolerância, dogmas, regras.
Quando conseguimos trazer o mundo para dentro da igreja, o enclausuramos dentro de uma armadura moral, dogmática, que não tem um valor efetivo contra o pecado. Depois de um tempo, aquelas prostituas, gays, viciados, adúlteros, estelionatários, entre outros praticantes dos sete pecados capitais, estão viciados em outros pecados; os religiosos. A verdade só liberta quando vem acompanhada de amor, verdade sem amor se torna imposição autoritária.
Conhecemos a Verdade, mas não somos donos dela.
Por que falhamos? Por muitos motivos. Porém, um claro na minha mente é que estamos cada vez mais parecidos com fariseus do que com Cristo. Isolamos-nos em nosso hipócrita clube santo cheio de gays encubados, adúlteros, invejosos, estelionatários, maçons, enfim, entre outros seres humanos; e nos tornamos irrelevantes para a sociedade. A sociedade não escuta nosso berro de Amor, mas escuta nosso grito moral egoísta defendendo nossos interesses particulares.
Por que nunca fizemos uma cruzada anti-drogas, corrupção, miséria, violência? Porque isso não mexe no nosso estatuto eclesiástico! Mas casar gays...aí não! Como disse inicialmente, sou um cristão ortodoxo, mas essa hipocrisia me enoja. Sei que há gente sincera preocupada com a ditadura gay que estão querendo implantar em nosso país, com essa casta diferenciada. Eu também estou receoso e faço coro contra a PL 122, mas meu chapa, eu sinto cheiro de oportunista de longe, tem muitos pegando carona nessa campanha pensando nas próximas eleições. Não vou aplaudir filho da ditadura por conta de termos um ponto de vista em comum, as motivações precisam ser avaliadas. O princípio de Maquiavel - os fins justificam os meios - não se aplica ao Reino de Deus. Deus está olhando o coração de todos nós. Desculpe, desabafei.
Voltando a igreja...
Mudanças radicais precisam ser feitas, mas alerto, antes de qualquer mudança operacional, litúrgica, evangelística, relacional, política e assistencialista, precisamos verificar a genuína conversão à Cristo.
O princípio de qualquer relevância em nossa obra cristã passa por uma conversão genuína de todos os homens que se auto-intitulam cristãos.
Enquanto a igreja não se encontrar com o Cristo do Caminho, o mesmo que reformulou o fariseu Saulo e o transformou em Paulo, o apóstolo mais relevante das Escrituras; permaneceremos nessa inércia, que com certeza, enoja e ofende a Deus tanto quanto a desconstrução da heteronormatividade.
Deus nos perdoe e nos desmascare.


